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quinta-feira, 9 de setembro de 2010

As portas pararam de bater

Da última vez que postei, lembro de ter comentado sobre alguns comportamentos ruins que estavam presentes como, em momentos de raiva, o Gabriel querer bater nas pessoas, jogar o que vê no chão, bater as portas, etc. Coisas que irritam muuuito. Na semana seguinte, resolvemos usar a estratégia do reforço positivo. Como a Cíntia também a está usando nas sessões da terapia, achamos que seria um boa tentativa. E foi o que fizemos. Eu havia comprado há algum tempo um painel com ímãs para ajudá-lo na visualização das tarefas diárias, de forma que ficasse mais fácil pro seu cérebro entender a ordem delas (autistas são extremamente visuais e tem dificuldade de entender o sentido abstrato das coisas, para eles um desenho vale mais que mil palavras). Mas ficou encostado porque eu mesma fiz outro painel, com desenhos maiores. Tive a idéia de resgatá-lo do fundo do armário e qual foi a minha surpresa quando vi que o tema principal do painel era o personagem do “Go-Diego-Go”. Pensa se não caiu como uma luva, já que é a fixação dele nos últimos meses. O Diego e a “Dora Aventureira” são os desenhos preferidos dele no momento. Combinamos as regras então: Não jogar as coisas no chão, não bater em ninguém, não bater a porta. Ensinamos que quando ele estiver com raiva precisa ficar sozinho até que ela passe. Caso ele cumprisse tudinho, ganharia um íma por dia. Quando completasse 10 ímas, ele ganharia um prêmio. No primeiro dia não deu certo, acho que porque ele ainda não tinha assimilado as regras, mas no segundo dia, mudanças começaram a acontecer. Em alguns dias ele não ganhou e ficou triste de dar dó, mas quando ganhava, todo mundo fazia uma festa. Quando ganhou seu décimo íma resolvemos que o prêmio seria uma ida ao cinema. Levei-o para ver "Meu malvado favorito". Particularmente, acho que ele não entendeu muito bem o filme, mas o que importa é que todos aqueles comportamentos foram por água abaixo. Go- Gabriel- Go!!


Painel do Diego
A cara de felicidade ao ganhar o décimo ímã

domingo, 11 de julho de 2010

Muitas histórias e uma viagem

Fomos a uma reunião com outros pais de autistas promovida por algumas psicólogas que estão motivadas a proporcionar um contato maior entre os pais de seus pacientes. Foi uma experiência muito boa. Falamos e ouvimos muitos relatos sobre o dia-a-dia da vida de nossos filhos e isso certamente foi muito enriquecedor. Conhecemos algumas pessoas com realidades diferentes da nossa, com idade e graus de autismo diferentes do Gabriel, mas que tem em comum o diagnóstico e o impacto dele na vida familiar. Acho que ouvir e conhecer outras experiências é sempre bom. A gente cresce e aprende mais. Reflete sobre a intensidade que damos aos nossos problemas e concluimos que muitas vezes nosso problema não era tão grande quanto imaginávamos. Ou então o contrário, que o buraco é, sim, bem mais embaixo. Os relatos foram carregados de vivências boas e outras nem tanto assim. Vi mães que fazem de um limão, uma limonada, todos os dias. Discutimos sobre a escolha de um casal de ter outros filhos depois de saber que um deles tem o transtorno, a experiência dos irmãos de autistas e sua vergonha deles, sobre a renúncia da carreira profissional por algumas mães para escolher cuidar de seus filhos, o impacto do diagnóstico na vida familiar e seus reflexos na vida conjugal, entre outros assuntos. Dentre todos que falaram destaco um frase muito bonita dita por um dos poucos pais presentes. Quando ele falava sobre as dificuldades de ter um filho autista e das projeções que fazemos na vida deles, ele falou: "Não importa como será o futuro dele, se vai casar, se vai ter filhos, se vai ter uma profissão, o mais importante é curtir essa viagem sensacional que tenho ao lado do meu filho. Curto cada momento dessa viagem sem tanta preocupação do que virá depois". Achei tão linda e me emocionei com essa afirmação. Lembro de quando estava grávida que meu desejo maior e o meu pedido constante a Deus, era que meu filho fosse FELIZ, vivendo e fazendo o que gosta. Acho que a maioria das mães pede saúde, saúde e saúde. Pois é, eu só pedia felicidade. Pedia que Deus me desse capacidade de fazê-lo feliz. Vi o rosto desse pai e percebi que independente do diagnóstico, havia uma felicidade ímpar de conviver com uma criança autista. Esse sentimento que buscamos e projetamos, está ao nosso lado, com aqueles que amamos e compartilhamos nossa vida. Parece ser tão natural não é? Mas acho que perdemos muito dessa essência buscando coisas materiais e passageiras.
Outra mãe que gostei de conhecer foi a de um autista de 24 anos. Tenho curiosidade de conhecer adultos com o transtorno e conhecer suas experiências diante das mais variadas fases da vida. Como foi na adolescência por exemplo? Como a família lidou? Quais foram os maiores desafios? Enfim são tantas coisas que desejo saber. Combinei com ela de conhecer seu filho numa outra oportunidade, tenho certeza que será uma experiência em tanto. Enfim, poderia contar mais sobre essas pessoas que conheci, mas o post ficaria imenso, então prefiro agradecer a esse grupo de psicólogas (do qual a Cíntia faz parte) pela oportunidade rica e válida de nos aproximarmos  e crescermos juntos. Meninas, vocês foram ótimas. Torço para que vocês continuem fazendo esse trabalho, que só tem a acrescentar na carreira de vocês.
Quanto a felicidade que tanto pedi, só o Gabriel um dia poderá dizer, mas tenho absoluta certeza de que apesar dos desafios, das projeções não realizadas até agora ou das que acontecerão no futuro, minha viagem ao lado do Gabriel tem sido uma viagem de aventura, cheia de surpresas, aprendizado e um pouco de suspense de vez em quando, mas compartilho do mesmo sentimento daquele pai de que o vale é a curtição dessa viagem  e principalmente da felicidade de viver ao lado de uma criança especial.

terça-feira, 22 de junho de 2010

"Nada se cria tudo se copia"

Nossa dificuldade nas sessões de psicoterapia, dita em um post anterior, parece ter sido solucionada. Como sugestão da Cíntia, para descobrir se a resistência do Gabriel tinha relação à ela ou ao atendimento em si, simulamos a ida ao consultório para ver a Camila, que é uma outra psicóloga que atende outro menino na mesma hora da sessão do Gabriel. E não foi que ele aceitou numa boa. Também pudera, a Cíntia é que corrige, que pega no pé, que cobra, enfim, que faz o trabalho "chato". Já a Camila é pra dar beijos, abraços, emprestar brinquedo ou DVD's. Pelo menos agora ele não apronta um auê pra ir pra consulta. A Cíntia resolveu também não continuar utilizando as caixinhas (programas utilizados na sessão), ao invés disso ela procurou outras abordagens, para ver se assim ele aceitaria melhor as sessões. Ontem a coisa melhorou ainda mais, já que a Cíntia e a Camila resolveram trabalhar de forma conjunta o Gabriel e o outro menino, que também se chama Gabriel, mas que tem 11 anos. Parece que a sessão foi sensacional. Como o comportamento do meu Gabriel é totalmente moldado por imitação, foi maravilhoso ele ter outra criança para copiar. Até massagem ele pediu porque o outro garoto não começa sua sessão sem essa atividade. Massagem não é o forte do meu Gabriel. Pra ele aceitar só na base da brincadeira e mesmo assim tem que ser por pouco tempo, porque já fica impaciente. Agora ele já mudou e até pede por um carinho com óleo de massagem. Outra coisa muito legal foi que o outro Gabriel faz sempre as caixinhas numa boa, sem reclamar e quando o meu Gabriel viu, começou a querer fazer também. Pronto, achei tudo de bom. Fiquei aliviada pois assim a Cíntia pode dar continuidade ao seu trabalho, antes interrompido. E o mais maravilhoso foi o comentário do meu Gabriel frente a uma certa situação: Estava a Camila e o outro Gabriel finalizando a sua sessão, quando ele perguntou se ele poderia ir um pouco pro computador. A Camila disse que não, pois o pai dele já havia chegado e que por isso ele precisava ir embora. Ele insistiu e disse que queria muito jogar um pouco no computador. De novo a Camila disse que não, que já era preciso ele ir embora. Assistindo todo o diálogo, o meu Gabriel fez o seguinte comentário: - Nossa Cíntia, eles estão conversando, né? A Cíntia respondeu: - É Gabriel, quando tem um problema as pessoas precisam conversar para resolvê-los. Daí ele falou: - É Cíntia, não pode bater, nem beliscar. Tem que conversar! Uhuuu!! Vibrei quando a Cíntia me contou. Acho que foi  um dos momentos mais esperados por mim desde quando a agressividade do Gabriel apareceu (isso tem mais ou menos uns 3 anos, quando os beliscões, tapas e chutes começaram). Vocês não podem imaginar como foi importante saber que meu filho, enfim, entendeu que precisa conversar para se entender com outras pessoas. Para mim isso não tem preço. Fico emocionada só de pensar que isso é um grande (re)começo para ele. Torço pra que essa imitação continue sendo positiva e que ele continue copiando os bons comportamentos do seu companheiro de terapia.